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A Copa do Mundo começou e, com ela, o momento de analisar os primeiros meses do Cruzeiro em 2026 e ficar na expectativa de que o clube recupere os atletas física e mentalmente. Um ano que começou cheio de possibilidades e esperanças, mas, por uma estranha insistência em um trabalho infrutífero, virou um grande tormento na vida do cruzeirense. Esse torcedor, que, mesmo com a conquista do Campeonato Mineiro, não conseguiu ter o mínimo de sossego, pois a vida no Brasileirão estava complicada.
A temporada do Cruzeiro até aqui pode ser dividida em dois momentos: antes do Artur Jorge e depois do Artur Jorge. Antes da chegada do treinador português, o Cruzeiro foi comandado por Tite, até a partida diante do Vasco, que marca a sua demissão, e por Wesley Carvalho, que comanda interinamente por dois jogos.
Mesmo com o título mineiro, a perspectiva era de uma luta ferrenha contra o rebaixamento, um receio crescente dia após dia da eliminação na fase de grupos da Libertadores e um receio de não avançar na Copa do Brasil. Um time que só acumulava jogos e fazia raiva em seu torcedor no Campeonato Brasileiro. Antes da chegada do técnico português, foram oito jogos na competição e nenhuma vitória, e apenas quatro pontos somados. Se pensarmos em desempenho, o único jogo em que se pode dizer que esse fato ocorreu foi diante do Uberlândia, na terceira rodada do Campeonato Mineiro de 2026, partida vencida por cinco a zero.
Na data FIFA de março, Artur Jorge desembarca em Belo Horizonte, renovando a esperança de um “amanhã melhor”, corrigindo um erro de planejamento do final de 2025, em que trouxeram o Tite em vez do ex-técnico do Al-Rayyan, do Catar. No atual momento vivido pelo Cruzeiro, podemos afirmar que esse “amanhã melhor” pode existir.
A missão recebida pelo técnico recém-chegado era digna de um semideus grego; e, quando pensamos em um semideus grego com missões complicadas, nos vem à cabeça Hércules, que teve como missão para uma redenção realizar doze trabalhos que pareciam, ao menos para um mero mortal, impossíveis, e dessa história nós tiramos a expressão “trabalho hercúleo”. Esse trabalho estava destinado ao treinador recém-chegado do Catar e, para além do fato de manter o Cruzeiro vivo nas competições, o treinador precisava trabalhar para melhorar aspectos táticos, físicos, técnicos e até o lado psicológico dos atletas. Além dessas situações, precisava passar confiança ao torcedor, ou seja, mostrar que existia forma de recuperar esse elenco e as esperanças de uma torcida que ansiava por boas apresentações. Mas, antes de falarmos do trabalho de Artur Jorge, é preciso relembrarmos o que o ex-técnico Tite fez por aqui.
Antes de Artur Jorge
Com o senhor Adenor Bachi, o Cruzeiro jogava de forma modorrenta, em um 4-2-3-1, com 5 meio-campistas, que poderiam proporcionar maior variação e liberdade aos laterais; essa era para ser a ideia, porém o que foi visto assustou os torcedores. Uma equipe com lampejos na criação, variações mínimas, com 2-3-5 e 3-2-5 como base em criação.
A promessa de um “jogo de posição não engessado” não foi cumprida. Gerson, conhecido por sua capacidade criativa, foi minado pelo treinador, que deu pouca liberdade ao jogador, que, apesar de baixar em apoio por dentro, mesmo jogando por fora, ainda era estático em muitos momentos em campo. Defensivamente, a equipe de Tite era facilmente superada por equipes inferiores, com um entrelinhas fácil de adentrar e uma zaga insegura de todas as formas. Em um 4-4-2 em bloco médio, parecia faltar jogadores.
Depois de Artur Jorge
A expectativa era de apenas sobreviver; afinal, com pouco tempo para treinar, o que o treinador português poderia realizar? Com variações táticas dignas de um ótimo treinador, Artur implementou seu 4-2-3-1, utilizando variações com bola, 3-1-5-1, 3-4-3, 3-6-1, entre outros; sem bola, utilizando 4-4-2, 4-2-3-1 e 4-3-3. Mas, para além de variações sistêmicas, apesar de tropeços na caminhada, a equipe apresentava movimentações diferentes. Gerson, citado como alguém minado anteriormente, é potencializado, teoricamente como um 2º volante, mas que flutua por todo o campo, tendo a liberdade de estar onde sua leitura o colocar.
Com apenas um jogo a mais que o Tite, o atual treinador celeste conseguiu dez vitórias, cinco empates e três derrotas. Esses resultados ajudaram a manter o Cruzeiro vivo nas competições e tiraram o time de uma situação extremamente complicada dentro do Campeonato Brasileiro. Os embalos dos meses de abril e maio trouxeram ao torcedor a visão de que o time tem, de fato, um espaço para melhorar. Uma equipe que começou a vencer, recuperou a confiança e, sobre isso, precisamos falar sobre o psicológico.
A Teoria da Autodeterminação (TAD), desenvolvida pelos psicólogos Edward Deci e Richard Ryan, procura responder ao porquê de as pessoas fazerem o que fazem. Uma de suas definições é a motivação extrínseca, no caso, sendo algo externo que faz um desempenho acontecer. Neste ponto, é importante destacar que, logo em sua chegada, Artur demonstrava que psicologicamente a equipe celeste precisava entender onde estava, e isso foi, obviamente, fundamental para a melhora de desempenho. Uma equipe que vibrava mais, que parecia entender finalmente o peso da camisa. Não que isso seja um fator determinante para os resultados, porém o futebol é movido não apenas entre as quatro linhas, mas fora delas também, e, neste ponto, o treinador português, mais uma vez, trouxe à luz a escuridão.
Por mais que nesse caminho tenham aparecido três pedras que geraram desconfiança no torcedor, as derrotas para o São Paulo, Universidad Católica e Atlético Mineiro, duas em pleno Mineirão lotado, deixam uma sombra de desconfiança de que esse elenco carece de peças para fazer uma virada de chave. Mas é possível perceber que o time encerra a caminhada antes da Copa do Mundo com o saldo no positivo.
A expectativa agora muda um pouco; as fichas vão ser depositadas na reformulação necessária do elenco. É importante que o Cruzeiro consiga peças que de fato reforcem o seu time, mas, para além das chegadas, faz-se necessária a saída daqueles atletas que não agregam e/ou não são utilizados pelo treinador. Existe um certo receio sobre a capacidade da diretoria de ser eficiente na contratação das peças e, com isso, de fato conseguir suprir as carências que esse elenco apresenta durante um tempo longo. Afinal de contas, vemos buracos no elenco que se alongam desde os tempos da gestão Ronaldo.
O aumento da confiança do torcedor irá passar pelas ferramentas que vão colocar nas mãos do Artur Jorge para encerrar a temporada de 2026, cumprindo ao menos o mínimo das expectativas colocadas no início do ano. Agora o momento pede para aguardar, mas pede uma observação para entender o que será feito com esse elenco e se conseguiremos dar um passo a mais ainda nessa temporada.
*O conteúdo deste texto não reflete, necessariamente, a opinião do Diário Celeste